Racismo, sexismo e resquícios do escravismo em anúncios de empregos

Conteúdo do artigo principal

Ana Flávia Rezende
https://orcid.org/0000-0002-1926-0174
Luís Fernando Silva Andrade
https://orcid.org/0000-0001-9963-2048

Resumo

Anúncios de empregos podem apresentar elementos de opressão de raça, ainda que sutilmente, em expressões como ‘boa aparência’ e ‘boa higiene’. Tal constatação nos faz refletir que o mercado de trabalho, assim como a sociedade em geral, é racialmente estruturado não apenas na permanência e ascensão profissional de mulheres negras, mas até mesmo no recrutamento, do qual os anúncios de emprego on-line fazem parte. Na presente pesquisa, partimos do objetivo de compreender como a publicação de anúncios de emprego que trazem em si características fenotípicas e relacionadas a ‘boa aparência’ contribuem para a perpetuação do racismo e do sexismo. Especificamente, almejamos compreender como se dá a resistência às práticas e à estrutura racista do mercado de trabalho. Recorremos a referenciais de decolonialidade e interseccionalidade e utilizamos a análise temática em um corpus de 285 anúncios de emprego, 4 sites de classificados e 4 iniciativas de empregabilidade negra presentes no LinkedIn. Nos resultados e discussão, indicamos que um ideal de trabalhadora branca perpetua-se no mercado de trabalho doméstico e que boa imagem e boa higiene são expressões eufemísticas que mascaram o racismo presente no mercado de trabalho, manifestando resquícios do escravismo. Ainda assim, iniciativas atuais de empregabilidade negra buscam trazer à tona a necessidade de pensar ações afirmativas para homens e mulheres negros, historicamente excluídos de empregos de maior prestígio e remuneração, assim como de espaços de decisão. Esse movimento entre opressão, resistência e existência negra opera um projeto decolonial de intervenção na realidade, principal contribuição da presente pesquisa.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Métricas

Carregando Métricas ...

Detalhes do artigo

Como Citar
Rezende, A. F., & Andrade, L. F. S. (2023). Racismo, sexismo e resquícios do escravismo em anúncios de empregos. Cadernos EBAPE.BR, 21(3), e2022–0036. https://doi.org/10.1590/1679-395120220036
Seção
Artigos

Referências

Afro Presença. (2022). Sobre o movimento. Recuperado de https://afropresenca.com.br/sobre-o-movimento/

Alves, L. (2019, novembro 13). Anúncio de emprego em BH exige candidatas que não sejam 'negras ou gordas'. O Tempo. Recuperado de https://www.otempo.com.br/cidades/anuncio-de-emprego-em-bh-exige-candidatas-que-nao-sejam-negras-ou-gordas-1.2261344

Aronson, J. (1995). A pragmatic view of thematic analysis. The Qualitative Report, 2(1), 1-3. Recuperado de https://doi.org/10.46743/2160-3715/1995.2069

Bernardino-Costa, J. (2013). Colonialidade e interseccionalidade: o trabalho doméstico no brasil e seus desafios para o século XXI. In T. D. Silva, & F. L. Goes (Org.), Igualdade racial no Brasil: reflexões no Ano Internacional dos Afrodescendentes. Rio de Janeiro, RJ: IPEA. Recuperado de https://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/livros/livros/livro_igualdade_racialbrasil01.pdf

Bernardino-Costa, J. (2015). Decolonialidade e interseccionalidade emancipadora: a organização política das trabalhadoras domésticas no Brasil. Sociedade e Estado, 30, 147-163. Recuperado de https://doi.org/10.1590/S0102-69922015000100009

Bernardino-Costa, J. (2016). A prece de Frantz Fanon: oh, meu corpo, faça sempre de mim um homem que questiona! Civitas-Revista de Ciências Sociais, 16, 504-521. Recuperado de https://doi.org/10.15448/1984-7289.2016.3.22915

Bernardino-Costa, J., Maldonado-Torres, N., & Grosfoguel, R. (2020). Decolonialidade e pensamento afrodiaspórico (2a ed., 3a reimp.). Belo Horizonte, BH: Autêntica.

Brah, A. (2006). Diferença, diversidade, diferenciação. Cadernos Pagu, 26, 329-376. Recuperado de https://doi.org/10.1590/S0104-83332006000100014

Braun, V., & Clarke, V. (2006). Using thematic analysis in psychology. Qualitative Research in Psychology, 3(2), 77-101. Recuperado de https://doi.org/10.1191/1478088706qp063oa

Camino, L., Silva, P., Machado, A., & Pereira, C. (2001). A face oculta do racismo no Brasil: Uma análise psicossociológica. Revista de psicologia política, 1(1), 13-36. Recuperado de https://abpsicologiapolitica.files.wordpress.com/2019/06/revista-psicologia-politica-v1n1.pdf

Carneiro, S. (2011). Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil. São Paulo, SP: Selo Negro Edições.

Catho. (2022). Site. Recuperado de https://www.catho.com.br/area-candidato

Collins, P. H., & Bilge, S. (2021). Interseccionalidade. São Paulo, SP: Boitempo.

Costa, L., Jr., & Silva, L. C. (2020). Homens e mulheres: desvantagens em decisão de emprego a cargos administrativos. Revista Eletrônica de Administração e Turismo, 14(1), 59-74. Recuperado de https://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/AT/article/view/16572/11364

Costa, L., Jr., & Silva, L. C. (2021). Brancos e negros: vantagens em decisões de emprego. Economia & Gestão, 21(58), 223-235. Recuperado de https://doi.org/10.5752/P.1984-6606.2021v21n58p223-235

Crenshaw, K. (1990). Mapping the margins: Intersectionality, identity politics, and violence against women of color. Stanford Law Review, 43, 1241-1299. Recuperado de https://supportnewyork.files.wordpress.com/2018/04/mapping-the-margins.pdf

Damasceno, C. M. (2013, julho). 'Cor' e 'boa aparência' no mundo do trabalho doméstico: problemas de pesquisa da curta à longa duração. In Anais do 17º Simpósio Nacional de História, Natal, RN. Recuperado de http://www.snh2013.anpuh.org/resources/anais/27/1364682879_ARQUIVO_2013_TEXTOanpuh_CaetanaDamasceno.pdf

Davis, A. (2016). Mulheres, raça e classe. São Paulo, SP: Boitempo.

Decreto-Lei nº 5.452, de 01 de maio de 1943. (1943). Aprova a Consolidação das Leis de Trabalho. Rio de Janeiro, RJ. Recuperado de http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del5452.htm

EmpregueAfro. (2022). Quem somos. Recuperado de https://empregueafro.com.br/quem-somos/

Fanon, F. (1968). Os Condenados da Terra. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira.

Fanon, F. (2008). Pele negra, máscaras brancas. Salvador, BA: EDUFBA.

Gomes, N. L. (2019). O movimento negro educador: saberes construídos nas lutas por emancipação. Petrópolis, RJ: Vozes.

Gomes, N. L. (2020). Sem perder a raiz: corpo e cabelo como símbolos da identidade negra. Belo Horizonte, BH: Autêntica.

Gonzalez, L. (1984). Racismo e sexismo na cultura brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje, 2(1), 223-244.

Gonzalez, L. (2020). Por um feminismo afro-latino-americano. Rio de Janeiro, RJ: Zahar.

Grosfoguel, R. (2020). Para uma visão decolonial da crise civilizatória e dos paradigmas da esquerda ocidentalizada. In J. Bernardino-Costa, N. Maldonado-Torres, & R. Grosfoguel (Orgs.), Decolonialidade e pensamento afrodiaspórico (2a ed., 3a reimp.). Belo Horizonte, BH: Autêntica.

Hasenbalg, C. (2022). Raça, Classe e Mobilidade. In L. Gonzalez, & C. Hasenbalg. Lugar de negro. Rio de Janeiro, RJ: Zahar.

Indique. (2022). Sobre. Recuperado de https://indq.co/sobre/

Lei nº 1.905, de 24 de novembro de 1998. (1998). Veda a utilização da expressão ‘Exige-se boa aparência’ em anúncios de recrutamento ou seleção de pessoal, e da outras providências. Campo Grande, MS. Recuperado de https://leisestaduais.com.br/ms/lei-ordinaria-n-1905-1998-mato-grosso-do-sul-veda-a-utilizacao-da-expressao-exige-se-boa-aparencia-em-anuncios-de-recrutamento-ou-selecao-de-pessoal-e-da-outras-providencias

Lei Ordinária nº 5.420, de 04 de setembro de 1998. (1998). Dispõe sobre a proibição da subjetiva expressão ‘boa aparência’ ou equivalente, em anúncios que objetivem selecionar candidatos para o preenchimento de vagas em quaisquer estabelecimentos, empresas, ou similares e dá outras providências. Salvador, BA. Recuperado de https://leismunicipais.com.br/a/ba/s/salvador/lei-ordinaria/1998/542/5420/lei-ordinaria-n-5420-1998-

Lei nº 5.876, de 06 de julho de 2015. (2015). Veda o uso da expressão boa aparência ou equivalente em anúncios de recrutamento de pessoal para ofertas de emprego, na imprensa escrita, falada, televisiva ou em qualquer meio eletrônico. Rio de Janeiro, RJ. Recuperado de http://aplicnt.camara.rj.gov.br/APL/Legislativos/contlei.nsf/1b957c23063fdd2d03257960006a1e65/bf000a81d6a462e983257e7a00716dcf?OpenDocument&Start=0.1

LinkedIn. (2022). Site. Recuperado de https://www.linkedin.com/

Lobo, E. S. (1985). Desventuras das mulheres em busca de emprego. Lua Nova, 2(1), 68-72. Recuperado de https://doi.org/10.1590/S0102-64451985000200017

Lugones, M. (2020). Colonialidade e gênero. In H. B. Hollanda (Ed.), Pensamento feminista hoje: Perspectivas decoloniais. Rio de Janeiro, RJ: Bazar do Tempo.

Maldonado-Torres, N. (2020). Analítica da colonialidade e da decolonialidade: algumas dimensões básicas. In J. Bernardino-Costa, N. Maldonado-Torres, & R. Grosfoguel (Orgs.), Decolonialidade e pensamento afrodiaspórico (2a ed., 3a reimp.). Belo Horizonte, BH: Autêntica.

Moura, C. (2019). Sociologia do Negro Brasileiro (2a ed.). São Paulo, SP: Perspectiva.

Munanga, K. (1999). Rediscutindo a Mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Petrópolis, RJ: Vozes.

Nascimento, A. (2019). O quilombismo: documentos de uma militância pan-africanista. São Paulo, SP: Perspectiva.

Nogueira, O. (2007). Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem. Sugestão de um quadro de referência para a interpretação sobre relações raciais no Brasil. Tempo Social, 19(1), 287-308. Recuperado de https://doi.org/10.1590/S0103-20702007000100015

Nogueira, T. P. C. C. R. (2017). Mucama Permitida: a identidade negra do trabalho doméstico no Brasil. Cadernos de Gênero e Diversidade, 3(4), 47-58. Recuperado de https://doi.org/10.9771/cgd.v3i4.22482

Oliveira, K. C., & Pimenta, S. M. O. (2016) O racismo nos anúncios de emprego do século XX. Linguagem em (Dis)curso – LemD, 16(3), 381-399. Recuperado de https://doi.org/10.1590/1982-4017-160301-4615

Paim, A. S., & Pereira, M. E. (2018). Judging good appearance in personnel selection. Organizações & Sociedade, 25(87), 656-675. Recuperado de https://doi.org/10.1590/1984-9250876

Prudente, E. A. J. (1988). O negro na ordem jurídica brasileira. Revista da Faculdade de Direito, Universidade de São Paulo, 83, 135-149. Recuperado de https://www.revistas.usp.br/rfdusp/article/view/67119/69729

Quijano, A. (2005). Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In E. Lander (Coord.), La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales, perspectivas latino-americanas. Buenos Aires, Argentina: CLACSO. Recuperado de http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/sur-sur/20100708034410/lander.pdf

Quijano, A., & Wallerstein, I. (1992). Americanity as a concept, or the Americas in the modern world. International Social Science Journal, 134(4), 549-557. Recuperado de https://www.javeriana.edu.co/blogs/syie/files/Quijano-and-Wallerstein-Americanity-as-a-Concept.pdf

Rezende, A. F., Mafra, F. L. N., & Pereira, J. J. (2018). Black entrepreneurship and ethnic beauty salons: possibilities for resistance in the social (re)construction of black identity. Organização & Sociedade, 25(87), 589-609. Recuperado de https://doi.org/10.1590/1984-9250873

Rosa, A. R. (2014). Relações raciais e estudos organizacionais no Brasil. RAC – Revista de Administração Contemporânea, 18(3), 240-260. Recuperado de https://doi.org/10.1590/1982-7849rac20141085

Teixeira, J. (2021). Trabalho doméstico. São Paulo, SP: Jandaíra.

Trovit. (2022). Site. Recuperado de https://empregos.trovit.com.br/

Vagas.com. (2022). Site. Recuperado de https://www.vagas.com.br/