O flâneur e a vertigem: metrópole e subjetividade na obra de João do Rio

Autores

  • Marcos Guedes Veneu

Resumo

O artigo propõe reforçar a possibilidade de "ler" modelos de pessoa e de subjetividade nas histórias e narrativas de "João do Rio", pseudônimo de Paulo Barreto (1881-1921). Essa interpretação incorpora referências no campo das ciências sociais e em particular nas análises de Georg Simmel sobre o individualismo moderno, sobre a vida nas metrópoles. Vivendo no Rio de Janeiro na virada do século, uma época em que a cidade passava por agudas mudanças urbanas, políticas e culturais, que os habitantes experimentavam como vetores de "progresso" e "civilização", João do Rio elabora uma temática dos dilemas da subjetividade individual tal como ela é confrontada como vítima da metrópole, ao mesmo tempo que encontra sedução e ameaça. Ao longo de sua obra, as tensões que, na modernidade ocidental, acompanham a representação social da pessoa enquanto indivíduo, enquanto ser dotado de uma unidade intrínseca e de uma autonomia que o distingue dos outros, essas tensões resultam na criação de dois tipos literários: o dândi e o flâneur. Estes tipos dão expressão ao ideal do indivíduo singular como pano de fundo da experiência urbana das multidões anônimas e da desestabilizadora força do progresso. Por intermédio destes personagens o repórter-inspetor põe em pratica um tipo de "observação" que unifica o sujeito, a realidade e a literatura, dando lugar à descrição simultânea da vida das ruas e dos clubes de luxo, das peculiaridades locais e dos aspectos mais cosmopolitas da cidade.

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Publicado

1990-12-30

Edição

Seção

Artigos